LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
Brincar com fogo, de Machado de Assis


Edio referncia: http://www2.uol.com.br/machadodeassis 
Publicado originalmente em Jornal das Famlias 1875 

I 

Lcia e Maria chamavam-se as duas moas. A segunda era antes conhecida pelo 
diminutivo Mariquinhas que neste caso estava perfeitamente com a estatura da pessoa. 
Mariquinhas era pequenina, refeitinha e bonitinha; tinha a cor morena, os olhos pretos, ou 
quase pretos, mos e ps pouco menos invisveis. Entrava nos seus dezoito anos, e 
contava j cerca de seis namoros consecutivos. Atualmente no tinha nenhum. 
Lcia era de estatura me, tinha olhos e cabelos castanhos, ps e mos regulares e 
proporcionados ao tamanho do corpo, e a tez clara. Deitava j pelas costas os dezoito e 
entrava nos dezenove. Namoros extintos: sete. 
Tais eram as duas damas de cuja vida vou contar um episdio original, que servir de 
aviso s que se acharem em iguais circunstncias. 
Lcia e Mariquinhas eram muito amigas e quase parentas. O parentesco no vem ao 
caso, e por isso bastar saber que a primeira era filha de um velho mdico  velho em 
todos os sentidos, porque a cincia para ele estava no mesmo ponto em que ele a 
conheceu em 1849. Mariquinhas j no tinha pai; vivia com sua me, que era viva de um 
tabelio. 
Eram ntimas amigas como disse acima, e sendo amigas e moas, eram naturais 
confidentes uma da outra. Namoro que uma encetasse era logo comunicado  outra. As 
cartas eram redigidas entre ambas, quando se achavam juntas ou simplesmente 
comunicadas por cpia no caso contrrio. Algum beijo casual e raro que uma delas 
houvesse colhido ou concedido no deixava de ser contado  outra, que fazia o mesmo 
em idnticas circunstncias. 
Os namoros de que falo no eram com intenes casamenteiras. Nenhuma delas se 
sentia inclinada ao matrimnio  pelo menos, com os indivduos escolhidos. Eram 
passatempos, namoravam para fazer alguma coisa, para ocupar o esprito ou 
simplesmente debicar o prximo. 
Um dia a coisa seria mais grave, e nesse caso as confidncias seriam menos freqentes 
e completas. Tal dia porm no chegara ainda, e as duas moas passavam pelas mais 
atrevidas roedoras de corda que a natureza ps no bairro dos Cajueiros. Lcia morava na 
Rua da Princesa, e Mariquinhas na do Prncipe. 

II 

Como se visitavam a mido, e passavam dias e dias uma em casa da outra, aconteceu 
que pela Pscoa do ano de 1868 estavam ambas  janela da casa de Lcia, quando 
viram ao longe uma cara nova. Cara nova quer dizer petimetre novo, ainda no 
explorador daquele bairro. 
Efetivamente era a primeira vez que o sr. Joo dos Passos penetrava naquela regio, 
conquanto nutrisse h muito tempo esse desejo. Naquele dia, ao almoo resolveu que iria 
aos Cajueiros. A ocasio no podia ser mais prpria. Recebera do alfaiate a primeira 
cala da ltima moda, fazenda finssima, e comprara na antevspera um chapu 
fabricado em Paris. tava no trinque. Tinha certeza de causar sensao. 


Era Joo dos Passos um rapaz de vinte e tantos anos, estatura regular, bigode raro e 
barba rapada. No era bonito nem feio; era assim. Tinha alguma elegncia natural, que 
ele exagerava com uns meneios e jeito que dava ao corpo na idia de que ficaria melhor. 
Era iluso, porque ficava pssimo. A natureza tinha-lhe dado uma vista agudssima; a 
imitao deu-lhe uma luneta de um vidro s, que ele trazia pendente de uma fita larga ao 
pescoo. Fincava-a de quando em quando no olho esquerdo, sobretudo quando havia 
moas  janela. 
Tal foi a cara nova que as duas amigas lobrigaram ao longe. 

 H de ser meu! dizia uma rindo.
 No, senhora, aquele vem destinado  minha pessoa, reclamava a outra.
 Fique-se l com o Abreu!
 E voc, porque no se fica com o Antonico?
 Pois seja  sorte!
 No, h de ser a que ele preferir.
 Caluda!
Joo dos Passos aproximava-se. Vinha pela calada oposta, com a luneta assestada na
janela em que as duas moas estavam. Quando viu que no eram desagradveis, antes
mui simpticas e galantes, aperfeioou o jeitinho que dava ao corpo e entrou a fazer com
a bengala de junco passagens difceis e divertidas.
 Bravssimo! dizia Mariquinhas  amiga.
 Que tal? perguntava Lcia.
E ambas cravavam os olhos em Joo dos Passos, que, pela sua parte, tendo o olho
direito desimpedido da luneta, podia ver claramente que as duas belas olhavam para a
sua pessoa.
Foi passando e olhando sem que elas tirassem dele os olhos, o que sobremaneira
comoveu o petimetre a ponto que o obrigou a voltar a cabea cinco ou seis vezes. Na
primeira esquina, que ficava um pouco distante, Joo dos Passos parou, tirou o leno e
enxugou a cara. No havia necessidade disso, mas era conveniente dizer uma espcie de
adeus com o leno, quando o fosse guardar na algibeira. Feito isso, continuou Joo dos
Passos o seu caminho.
  comigo! dizia Mariquinhas a Lcia.
Lcia reclamava:
 Boas! Aquilo  comigo. Eu bem vi que ele no tirava os olhos de mim.  um bonito
rapaz...
 Talvez seja...
 Um pouco tolo?
 No te parece?
 Talvez... Mas bonito .
 Escusa de estar dizendo isso, porque ele  meu...
 No senhora,  meu.
E as duas amigas reclamavam com ardor, e a rir, a pessoa do adventcio gamenho, cuja
preferncia ainda estava por declarar. Nesse debate gastaram cerca de vinte minutos
quando viram apontar ao longe a figura de Joo dos Passos.
 L vem ele!
 Est filado!
Joo dos Passos vinha outra vez pelo lado oposto; a meio caminho porm atravessou a
rua, com o fim evidente de contemplar de perto as duas belas que teriam ao mesmo
tempo ocasio de o examinar melhor. Atrevo-me a dizer isto, porque Joo dos Passos
no duvidava da sua influncia pessoal.
 Agora veremos com quem  a coisa, disse Lcia.
 Veremos, assentiu Mariquinhas.
Joo dos Passos aproximava-se com os olhos na janela e bengala no ar. As duas moas
no tiravam os olhos dele. O momento era decisivo. Cada uma delas buscava chamar
exclusivamente a ateno do rapaz, mas a verdade  que ele olhava ora para uma, ora

para outra, com a mesma expresso.
Na ocasio, porm, em que ele passava justamente por baixo das janelas da casa, que
era assobradada, Mariquinhas com o ar sonso das namoradeiras de profisso, perguntou
 outra:


 Voc amanh h de ir l passar o dia na Rua do Prncipe; sim?
A resposta de Lcia foi dar-lhe um belisco, sem que uma nem outra desviassem os olhos
de Joo dos Passos, o qual, chegando a dez passos de distncia, deixou cair a bengala,
para ter ocasio de olhar ainda uma vez para as duas moas. Na prxima esquina,
lencinho fora, adeus disfarado, e movimento giratrio de bengala, at que de todo
desapareceu no horizonte.
III 

Lcia disse coisas muito feias a Mariquinhas, por causa da habilidade com que esta 
indicara ao rapaz a rua em que morava. Mariquinhas repeliu dignamente as censuras de 
Lcia, e ambas ficaram de acordo em que Joo dos Passos era pouco menos que 
desfrutvel. 

 Se a coisa for comigo, dizia Mariquinhas, eu prometo traz-lo de canto chorado. 
 E eu tambm, se a coisa for comigo, acudiu Lcia. 
Ficou assentado esse plano. 
No dia seguinte Mariquinhas voltou para casa, mas nem na Rua do Prncipe nem na da 
Princesa, apareceu a figura de Joo dos Passos. Aconteceu o mesmo nos outros dias, e 
j uma e outra das duas amigas tinham perdido a esperana de o tornarem a ver, quando 
no domingo prximo surgiu ele na Rua do Prncipe. S Lcia estava  janela, mas nem 
por isso deixou de haver o cerimonial do domingo anterior.
  comigo, pensou Lcia. 
E no se demorou em dar conta do ocorrido a Mariquinhas num bilhete que s pressas 
lhe escreveu e remeteu por uma negrinha. A negrinha partiu, e mal teria tempo de chegar 
 casa de Mariquinhas, quando um moleque da casa desta entregava a Lcia uma 
cartinha da sinh-moa. 
Dizia assim: 
A coisa  comigo! Passou agora mesmo, e... no te digo mais nada. 
A carta de Lcia dizia pouco mais ou menos a mesma coisa. Imagina-se facilmente o 
efeito deste caso; e sabido o carter galhofeiro das duas amigas facilmente se acreditar 
que na primeira ocasio assentassem de caoar com o petimetre, at ento annimo para 
elas. 
Assim foi. 
Na forma dos anteriores namoros ficou assentado que as duas comunicariam uma  outra 
o que se fosse passando com o namorado. Desta vez era a coisa ainda mais picante; a 
comparao das cartas apaixonadas do mesmo homem devia ser coisa muito para divertir 
as duas amigas. 
A primeira carta de Joo dos Passos s duas moas comeava assim: . Falava-lhes da 
cor dos cabelos, nica parte em que a carta sofreu modificao. Quanto  idia de 
matrimnio, havia um perodo em que alguma coisa transluzia, sendo a linguagem a 
mesma, e igualmente apaixonada. 
A primeira idia de Mariquinhas e Lcia foi dar idntica resposta ao novo namorado; mas 
a considerao de que semelhante recurso o desviaria, fez com que repelissem a idia, 
limitando-se ambas a declarar a Joo dos Passos que alguma coisa sentiam por ele, e 
animando-o a persistir na campanha. 
Joo dos Passos no era homem de recusar namoro. A facilidade que encontrara nas 
duas moas foi para ele uma grande animao. Comeou ento um verdadeiro entrudo 

epistolar. Joo dos Passos respondia pontualmente s namoradas; s vezes no se
contentava com uma s resposta, e mal despedira uma carta, logo carregava e disparava
outra, todas elas fulminantes e mortais. Nem por isso as moas deixavam de gozar
perfeita sade.
Um dia  duas semanas depois da inaugurao do namoro , Joo dos Passos a si
mesmo perguntou se no era arriscado escrever com a mesma letra s duas namoradas.
Sendo amigas ntimas era natural que mostrassem as cartas uma  outra. Refletiu porm
que se j houvessem mostrado as cartas teriam descoberto o estratagema. Logo, no
eram to ntimas como pareciam.
E se at agora no mostraram as cartas, continuou Joo dos Passos,  provvel que
nunca mais as mostrem.
Qual era o fim de Joo dos Passos entretendo este namoro? perguntar naturalmente o
leitor.
Casar?
Passar tempo?
Uma e outra coisa.
Se dali surdisse um casamento, Joo dos Passos o aceitaria de boa vontade, apesar de
no lhe dar muito o emprego que tinha na Casa da Misericrdia.
Se no surdisse casamento ficava ele ao menos com a satisfao de haver passado
alegremente o tempo.


IV 

O namoro prosseguiu assim durante alguns meses. 
As duas amigas comunicavam regularmente as cartas e redigiam prontas as respostas.
s vezes divertiam-se em dificultar-lhe a situao. Por exemplo, uma dizia que iria ver tal 
procisso da rua tal nmero tantos, e que o esperava  janela s tantas horas, ao passo 
que a outra marcava a mesma hora para o esperar  janela de sua casa. Joo dos 
Passos arranjava como podia o caso, sem escapar nunca aos arrufos de uma delas, coisa 
que o lisonjeava sobremaneira. 
As expresses amorosas das cartas de Mariquinhas e Lcia eram contrastadas pelas 
boas caoadas que faziam do namorado. 

 Como vai o bobo?
 Cada vez melhor.
 Ontem, voltou-se tanto para trs, que esteve quase a esbarrar com um velho.
 Pois l na Rua do Prncipe escapou de cair.
 Que pena!
 No cair?
 Decerto.
 Tens razo. Tinha vontade de v-lo de pernas para o ar.
 E eu!
 E o andar dele, j reparaste?
 Ora!
 Parece um boneco de engono.
 Imposturando com a luneta.
  verdade; aquilo h de ser impostura.
 Pode ser que no... porque ele tem realmente a vista curta.
 Isso tem; curtssima.
Tal era a opinio real que as duas moas faziam dele, mui diferente da que exprimiam
nas cartas que Joo dos Passos recebia com o maior prazer deste mundo.
Quando estavam juntas e o viam vir ao longe, a linguagem delas era sempre do mesmo
gnero. Mariquinhas, cujo esprito era to bulioso como o corpo, rompia sempre o
dilogo.

 Olha! olha! 
  ele? 
 O cujo... Como vem engraado!
  verdade. Olha o brao esquerdo! 
 E o jeitinho do ombro? 
 Jesus! que rosa tamanha no peito! 
 J vem rindo. 
  para mim.
  para mim.
E Joo dos Passos aproximava-se nadando num mar de delcias, e satisfeito de si
mesmo, visto estar convencido de que realmente embaava as duas moas.
Durou esta situao, como disse, alguns meses, creio que trs. Era tempo suficiente para
aborrecer a comdia; ela porm continuava, com uma modificao apenas.
Qual seria?
A pior de todas.
As cartas de Joo dos Passos comearam a no ser comunicadas entre as duas amigas.
Lcia foi a primeira que disse no receber cartas de Joo dos Passos, e no tardou que a
outra dissesse a mesma coisa. Ao mesmo tempo j a pessoa do namorado lhes no
causava riso, e sendo ele a princpio o objeto quase exclusivo da conversa de ambas,
dessa data em diante foi assunto interdito.
A razo, como o leitor adivinha,  que as duas amigas, estando a brincar com fogo,
vieram a queimar-se. Nenhuma delas, entretanto, lendo no seu prprio corao, chegou a
perceber que igual coisa se passava no corao da outra. Estavam convencidas de que
se enganavam muito habilmente.
E ainda mais.
Lcia refletia assim:
 Ele, que j lhe no escreve e continua a escrever-me,  porque me ama.
Mariquinhas discorria deste modo:
 No tem que ver. Ele acabou com o gracejo de escrever a Lcia, e a razo
naturalmente  que s eu domino no seu corao.
Um dia, a Mariquinhas arriscou esta pergunta:
 Ento Joo dos Passos nunca mais te escreveu?
 Nunca mais.
 Nem a mim.
 Naturalmente perdeu a esperana.
 H de ser isso.
 Tenho pena!
 E eu tambm.
E no seu interior a Lcia ria da Mariquinhas, e a Mariquinhas ria da Lcia.
V 

Joo dos Passos, entretanto, fazia consigo a reflexo seguinte: 

 Onde ir isto parar? Ambas gostam de mim, e eu, por ora, gosto de ambas. Como s
me devo casar com uma delas, tenho de escolher a melhor, e aqui comea a dificuldade.
O petimetre comparou em seguida as qualidades das duas namoradas.
O tipo de Lcia era para ele excelente; gostava das mulheres claras e de estatura regular.
Mas o tipo de Mariquinhas dominava igualmente em seu corao, porque amara a muitas
baixinhas e moreninhas.
Vacilava na escolha.
E por isso mesmo que vacilava na escolha,  que no amava verdadeiramente a
nenhuma delas, e no amando verdadeiramente a nenhuma delas, era natural adiar a
escolha para as calendas gregas.
As cartas continuavam a ser apaixonadssimas, o que lisonjeava extremamente a Joo

dos Passos.
O pai de Lcia e a me de Mariquinhas, que at agora no entraram no conto, nem
entraro daqui em diante, por no serem precisos, admiravam-se da mudana que
notavam nas filhas. Ambas estavam mais srias do que nunca. H namoro, concluram
eles, e cada um por sua parte procurou sondar o corao que lhe dizia respeito.
As duas moas confessaram que efetivamente amavam a um mancebo dotado de
eminentes qualidades e merecedor de entrar na famlia. Obtiveram consentimento para
fazer com que o mancebo de eminentes qualidades chegasse  fala.
Imagine o leitor o grau de contentamento das duas moas. Logo nesse dia cada uma
delas tratou de escrever a Joo dos Passos dizendo que podia ir pedi-la em casamento.
Tenha pacincia o leitor e continue a imaginar a surpresa de Joo dos Passos quando
recebeu as duas cartas contendo a mesma coisa. Um homem que, ao partir um ovo
cozido visse sair de dentro um elefante, no ficaria mais assombrado do que o nosso
Joo dos Passos.
Sua primeira idia foi uma suspeita. Desconfiou que ambas lhe armassem uma cilada, de
acordo com as famlias. Repeliu porm a suspeita, refletindo que em nenhum caso, o pai
de uma e a me de outra consentiriam no meio empregado. Compreendeu que era
amado igualmente de uma e outra, explicao que o espelho confirmou eloqentemente
quando ele lhe lanou um olhar interrogativo.
Que faria ele em tal situao?
Era a ocasio da escolha.
Joo dos Passos considerou o assunto por todos os lados. As duas moas eram as mais
belas do bairro. No tinham dinheiro, mas essa considerao desaparecia desde que ele
pudesse meter inveja a meio mundo. A questo era saber a qual delas daria a
preferncia.
A Lcia?
A Mariquinhas?
Resolveu estudar o caso mais detidamente; mas como era necessrio mandar imediata
resposta, escreveu duas cartas, uma para Mariquinhas, outra para Lcia, pretextando
uma demora indispensvel.
As cartas foram.
A que ele escreveu a Lcia dizia assim:
Minha querida Lcia.
No imaginas o contentamento que me deste com a tua carta. Vou enfim obter a maior
graa do cu, a de poder chamar-te minha esposa!
Vejo que ests mais ou menos autorizada por teu pai, esse honrado ancio, de quem
serei filho amante e obediente.
Obrigado!
Devia ir hoje mesmo  tua casa e pedir-te em casamento. Uma circunstncia, porm, me
impede de o fazer. Apenas ela desaparea, e nunca ir alm de uma semana, corro 
ordem que o cu me envia pela mo de um dos seus anjos.
Ama-me como eu te amo.
Adeus!
Teu, etc.
A carta dirigida a Mariquinhas era deste teor:
Minha Mariquinhas do meu corao.
Faltam-me palavras para dizer o jbilo que me deu a tua carta. Eu era um desgraado at
h poucos meses. Repentinamente a felicidade comeou a sorrir-me, e agora (oh! cus!)
l me acena com a maior ventura da terra, a de ser teu esposo.
Estou certo de que a tua respeitvel me de algum modo te insinuou o passo que deste.
Boa e santa senhora! Anseio por cham-la me, por ador-la de joelhos!
No posso, como devia, ir hoje mesmo  tua casa.
H uma razo que mo impede.
Descansa, que  razo passageira. Antes de oito dias l estarei, e se Deus nos no tolher



o passo, dentro de dois meses estaremos esposos.
Oh! Mariquinhas, que felicidade!
Adeus!
Teu, etc.
Ambas estas cartas traziam um post-scriptum, marcando a hora em que nessa noite ele
passaria pela casa delas. A hora de Lcia era s sete, a de Mariquinhas s oito.
As cartas foram entregues ao portador e levadas ao seu destino.
VI 

Neste ponto da narrativa, qualquer outro que no prezasse a curiosidade da leitora, 
intercalaria um captulo de consideraes filosficas, ou diria alguma coisa a respeito do 
namoro na antigidade. 
Eu no quero abusar da curiosidade da leitora. Minha obrigao  dizer que desenlace 
teve esta complicada situao. 
As cartas foram, mas foram erradas; a de Lcia foi entregue a Mariquinhas, e a de 
Mariquinhas a Lcia. 
No tenho foras para pintar o desapontamento, a raiva, o desespero das duas moas, e 
muito menos os faniquitos que sobrevieram  crise, coisa indispensvel em tal situao. 
Se se achassem debaixo do mesmo teto  possvel que o obiturio fosse enriquecido com 
os nomes das duas belas moas. Felizmente cada uma delas estava em sua casa, pelo 
que tudo se passou menos tragicamente. 
Os nomes que elas chamaram ao ingrato e prfido gamenho, podiam escrever-se se 
houvesse papel suficiente. Os que elas disseram uma da outra oravam pela mesma 
quantidade. Nisto gastaram os oito dias de prazo marcado por Joo dos Passos. 
Notou este, logo na primeira noite, que nenhuma delas o esperou  janela conforme fora 
marcado. No dia seguinte sucedeu a mesma coisa. 
Joo dos Passos indagou o que havia. Soube que as duas moas estavam incomodadas 
e de cama. Ainda assim no atinou com a causa, e limitou-se a mandar muitas 
lembranas, que os portadores aceitaram docilmente, apesar de terem ordem 
positivamente de no receberem nenhum recado mais. H casos porm em que um 
portador de cartas desobedece; um deles  o caso de remunerao e foi esse o caso de 
Joo dos Passos. 
No fim de oito dias ainda Joo dos Passos no tinha feito a sua escolha; mas o acaso, 
que governa a vida humana, quando a providncia se cansa de a dirigir, trouxe  casa do 
petimetre uma prima da roa, cuja riqueza consistia em dois belos olhos e cinco 
excelentes prdios. Joo dos Passos era doido por olhos bonitos mas no desdenhava os 
prdios. Os prdios e os olhos da prima decidiram o nosso perplexo heri, que nunca 
mais voltou aos Cajueiros. 
Lcia e Mariquinhas casaram mais tarde, mas apesar da ingratido de Joo dos Passos, 
e do tempo que decorreu, nunca mais se deram. Os esforos dos parentes foram 
baldados. Nenhuma delas seria capaz de casar em nenhuma hiptese com Joo dos 
Passos; e isto poderia lev-las a se estimarem como dantes. No foi assim; tudo 
perdoaram, exceto a humilhao. 

Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica 


